Como segundo marido de Gretel fui bem aceito pela família Finke pela qual senti desde o primeiro momento uma grande admiração. O único inconveniente em visitá-los era o excessivo calor que obrigava-me por vezes a levantar no meio da noite para tomar um banho frio. A família Finke tinha uma cozinheira negra chamada Dita que preparava pratos com sabor comparáveis aos do cozinheiro francês Savarin, somente com temperos e condimentos mais adequados ao paladar brasileiro. Certa vez quando estávamos visitando-os a Dita compôs (é impossível dizer diferente) uma feijoada. Para prepará-la buscou na feira a lingüiça do padre e outros ingredientes sem os quais não era possível a preparação de tal iguaria, que provavelmente é o mais saboroso prato que já pude saborear em toda a minha vida. Ela cozinhava também com extrema competência outros pratos como peixes que costumava assar inteiros usando seus temperos que pareciam mágicos. O Sr Finke faleceu nos braços da Dita quando estava com 85 anos.

 

Ficávamos normalmente três dias no Rio para descansar e na manhã do quarto dia carregávamos a Kombi para partir de volta para o sul. Invariavelmente enfrentávamos dois problemas na saída da cidade com fiscalizações. O primeiro era causado pelo amigo Antônio que fazia a Nota Fiscal da forma que a lei exigia e considerava-se um mestre nestes assuntos, porém sempre preenchia algum dado na linha errada, fazendo com que os fiscais nos pedissem uma gorjeta para liberar a mercadoria para seguir viagem. O segundo era com a Polícia Rodoviária Federal que sempre aproveitavam para parar o gaúcho e achavam alguma coisa de errado no veículo. Este problema era resolvido com um pequeno presente, normalmente um garrafão de vinho barato, que era entregue pela janela da Kombi. A polícia do Rio já naquela época era corrupta. Uma vez eu e meu cunhado Erwin dobramos em uma rua que era de mão única. Quando percebi o erro parei o veículo e estacionei. Segui a pé para ver onde iria sair aquela rua. Na volta encontrei um brigadiano ao lado da Kombi fazendo a autuação. Expliquei a situação para ele e dei-lhe uma gorjetinha. Como a ruazinha desembocava na Av. Getúlio Vargas o brigadiano parou todo o trânsito desta movimentada avenida para que nós passássemos para o outro lado e pudéssemos seguir viagem. O cunhado Erwin achou que o dinheiro da gorjetinha para o brigadiano tinha sido realmente muito pouco pelo trabalho que ele teve para nos ajudar.

 

Normalmente não haviam acontecimentos extraordinários em nossas viagens ao Rio com exceção de períodos de grandes enchentes que derrubaram a ponte do Rio Pelotas. Mas logo os pioneiros do Exército construíam uma ponte provisória e limpavam as cabeceiras com tratores para permitir a passagem.

 

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